Thursday, March 25, 2010

technology

Nossos números estão no sistema.
Nossos passos estão nas imagens dos satélites.

Nossos sonhos, medos e ações, relatadas nos blogs, foruns e redes sociais.

Nossos filhos brincam em mundos virtuais.

Nosso dinheiro não passa de um punhado de bits gravados num hd.

Se escrevemos errado, o corretor ortográfico nos avisa.

Se não sabemos eslováquio, o tradutor ajuda.

Não sentimos mais saudade, porque ligamos a webcam e nos marturbamos com a namorada, que está do outro lado do mundo, de frente pro seu laptop.

E nossas velhas fotografias não ficam mais amarelas, a não ser que queiramos.

Se quizermos podemos criar um buraco na cabeça ou no céu. Podemos fazer qualquer coisa em questão de segundos.

E nossos olhos vão nos enganar.

Quem tem medo do photoshop?

Quem tem medo de tanta tecnologia?

Com tão pouco já podemos tanto.

O que poderemos mais a frente? E de que forma usaremos tanto poder?

Quem vai acreditar em qualquer coisa daqui pra frente, se lhe mostrarem numa imagem?

E se te falarem?

E se você sentir na pele?

No que vamos acreditar quando ficarmos loucos?

Não, eu não tenho medo do photoshop.

Mas tenho medo da nossa inteligência, do nosso poder criativo, do nosso poder de destruir a lealdade, a realidade, e as lembranças, os fatos, as provas, enfim, destruir a verdade.

Tenho medo do que não consigo mais ver, de um monstro escondido atrás de todas as imagens modificadas, corrigidas, anuladas, profanadas.

Eu sei que isso não é novidade, pois forjar fotografias é algo tão velho quanto os avós mais velhos ainda vivos. Basta olhar pelas paredes das suas casas, seus quadros de lisos brancos amarelados, de leves pretos desbotados.

Mas o poder... o poder de se poder fazer algo tão preciso, de forma tão rápida, tão fácil.

É como dar a lâmina que corta o pulso para o suicida e lhe virar as costas, talvez lhe recomendando discrição no uso.

Tanto poder de manipulação nas mãos de uma sociedade tão narcisista, mesquinha e inescrupulosa, parece apenas uma brincadeira, apenas uma mera ferramenta de trabalho, mas é na verdade uma pequena agulha apontando o novo norte.

Não sei onde vamos parar, se é que vamos parar um dia, mas num mundo que ficou tão pequeno, talvez não tenhamos mais para onde ir, exceto para dentro de nós mesmos, e ai, sem mais saber o que é verdadeiro ou falso, o que é certo ou errado, talvez se torne perigoso ou tarde demais tentarmos descobrir isso.

Tratemos nossas fotografias antigas com respeito, pois cada vez mais, teremos menos do que lembrar de verdade.
¯


e para conhecimento: Projeto Venus

Achei ambos interessantes.
E bem, eu já não estava lendo coisas muito mais "simples" - HÁ!




Well I know
That you would love to go to heaven
But you know
That you're just too afraid to die
And I know
That you would love to know the answers
But to you
The truth is just another lie


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